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Estava tudo muito bonito naquela manhã, um céu azulado, quase sem nuvens, uma brisa fresca. Viu o amanhecer do sol, achou aquilo tão bonito que mesmo cansado do passar da noite em claro, decidiu não dormir e se levantou. Foi direto para o banheiro, escovou os dentes e foi preparar o café, e seguiu em direção a sala.
Ele tinha passado a noite toda em claro, mas não pensando nela, não entendam errado caros leitores, isso não é uma história de amor, o romance não tem mais espaço nesse mundo sóbrio e suas drogas substitutivas. Passou a noite pensando nas pequenas coisas que aconteceram no dia, como podia ter as feito diferente; como podia ter tido mais atenção e não deixado a jarra de café tão perto da porta do armário e assim não teria derrubado tudo no chão: café, jarra e tempo; como já era a segunda vez que ele chegava atrasado ao trabalho naquela semana e sempre por causa de pequenos descuidos como esses.
Tinha acabado de entrar nesse novo emprego que ele tanto lutou para conseguir e agora parece que o mundo conspirava contra ele, ou talvez ele conspirasse contra si mesmo. ‘Mas que bobagem!’, pensa em voz alta, ‘por que eu iria querer sair de um emprego que eu sempre quis?! Tenho cada ideia!’. E se dirige a sala, senta no sofá encardido que um dia foi bege e hoje tem cor de “burro quando foge” como dizia seu tio, e começa a se lembrar do acontecimento interessante que aconteceu no seu prédio ontem à tarde: a filha do seu vizinho foi para um convento. “No mundo de hoje, anda tem gente que quer ir para conventos…”, ele ri tomando seu café.
Ele estava saindo para por o lixo para fora e viu seu vizinho e sua filha segurando duas malas que não pareciam muito cheias, e diante do episódio, sem perceber, ele parou e ficou olhando atônito. Seu vizinho percebeu, virou para ele e disse: “minha filha está indo pra um convento orar para salvar esse mundo de podridão” e abriu um sorriso sincero e ingênuo. Sem saber o que fazer, ele sorriu de volta e continuou seu caminho até a rua pensando na tamanha desilusão que esse homem terá quando descobrir que, na verdade, o ser humano é que é podre e o mundo só deixará de ser podre quando não houver mais essa espécie.
Sem perceber, nosso herói dormiu no sofá e está atrasado para o trabalho, mais uma vez.

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Levantou. Arrumou suas coisas do jeito de sempre. Olhou novamente para aquele objeto que lhe dera tanta alegria e frustração. Sentou e apreciou a visão por mais alguns minutos. O desalento começa a tomar conta dele, o tempo vai ficando lento, muito lento e pela primeira vez na vida, ele não pensa em nada, só olha, com olhar de quem não vê. Fica assim por um tempo. É seu último dia ali, seu ultimo dia de certeza, daqui pra frente só dubiedade.
Nunca foi homem de muitas ambições, mas ser ambicioso é pra poucos, para seletos, ele era fruto da terra, colhido sem muito critério, nunca se fez importante, nunca o fizeram, assim como a maioria deles. Substituível e substitutivo. Não há tempo pra devaneios, não há lugar pra isso na vida dos como ele, não há mocinha para salvar, nem velhinhas para ajudar a atravessar a rua, nem gatos presos em árvores. Não há tempo! Não há tempo!
A presença de um vulto o traz de volta a aquele mundo, porém não há ninguém na porta. Pensa como toda a sua vida foi assim: feita de vultos, nunca havia ninguém na porta, ou quem sabe, ele é que nunca abria a porta na hora certa.
Dá-se conta que está escurecendo, mas não quer ir para casa, a solidão que antes era alívio tinha virado um grande monstro de sete cabeças. Permanece sentado. Pensa em quantos livros já leu: mais de mil sem dúvida, sempre foi amante deles e ler demasiado era quase obrigação profissional, pensa em quantos filmes já viu: mais de seiscentos, talvez mais, bem mais, não fazia ideia, daí pensou em quantas mulheres já teve: três. Para, seu braço se estica e sua mão pega um papel e escreve: “nota: ler menos livros, ver menos filmes e transar mais”, lê o que escreveu e ri, “minha mão é mais sensata que eu”, pensa com um sorriso amarelo no rosto.
Percebe que anoiteceu. Não há mais barulho fora do aposento, de repente tem uma sensação de paz mesclada de medo, se levanta, põe a cabeça para fora da porta – ninguém. Pega suas coisas, e vai embora, sabendo que não vai mais voltar.

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Ela recostou-se no sofá e dormiu. Estava ali há horas até que o homem chegou, deu uma tapa em sua bunda e disse: “acorda mulher!”.
Ela sempre teve problemas para dormir, sempre trocando o dia pela noite. Uma vez me disse o porquê disso: “Ah! Toda noite é esse sofrimento, ponho minha cabeça pra dormir e automaticamente essa mente de merda começa a pensar em zilhões de coisas! Todas sempre irrelevantes, algumas inventadas, outras acontecidas… e não me largam, parecem possuir meu cérebro, como uma enchente de pensamentos. As vezes eu estou tão cansada! Mas essa maldição não me deixa dormir! Essa maldição!” E saia xingando tudo quanto era nome. Uma vez lhe disse para começar a tomar esses remédios para dormir, talvez isso ajudasse, mas ela não quis saber, disse que essas pílulas era coisa de gente dependente, gente fraca e que ela tinha poucas coisas de que se orgulhar na vida, e sua força era uma delas.
Gostava da noite, e como gostava! Mas não se enganem, não era de farras, não era dessa noite que ela gostava, era simplesmente da noite mesmo, da sua poesia, da luz da lua, do ar, era tudo diferente, tudo tão calmo, tanta paz, enquanto todos estão dormindo ela não tem obrigações, não tem o que fazer, só resta marasmo. O que mais gostava da noite, ela sempre me dizia, era seu silencio: “tudo fica silenciado a noite, tudo o que acontece pela noite é fato não acontecido, não ocorrido, é mudo, sem fala, é tão negro quanto a noite, vai tudo pro buraco negro da noite”. Era meio louca, acho que esse sono louco que ela tinha a fez ficar meio pirada, ou talvez isso fosse consequência da loucura. Mas não me entendam mal, era não parecia louca, não sejam tão caricaturistas. Era jovem, bonita, daquelas belezas que se encontra nas mulheres jovens, as unhas de um vermelho ofuscante, aquela pele amarelada de falta de sol, os cabelos pintados de um vermelho bonito e aquela boca cheia de lábios, o corpo cheio de carnes e aquelas olheiras sutis que lhe davam um certo charme.
Poder-se-ia encontrá-la de manhã bem cedo e a noite, mas nunca a tarde, pois esse era o único horário que conseguia dormir, o que geralmente lhe custava o dia útil todo, e ela vivia reclamando: “Como eu adoraria acordar cedo, com disposição, como as pessoas normais fazem, tomar café da manhã depois de ter dormido, sabe? Ah! Que sonho, meu Deus! Sempre acordo mal, com uma vontade louca de continuar dormindo. Bosta! Porque eu não tenho esse sono todo na hora de dormir de verdade?!”. Eu ficava pensando: como ela ganha a vida com esses horários todos errados? Soube que era escritora, mas ninguém vive de escrever, pelo menos não aqui nesse país, isso é coisa pra poucos. Depois soube que fazia faculdade, acho que de psicologia, e morava com a mãe. Como a mãe dela a deixa dormir assim?! Todo errado?! Essas mães de hoje em dia… A minha nunca me deixaria numa moleza dessas!
Mas… que horas serão? Já estou deitado nessa cama faz tanto tempo que nem faço mais idéia… merda! São 4:30!!!! Como pode!?! Será que estou pegando a doença dela?!

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Eu nunca tinha pensado em me casar, nunca. Mas olha eu aqui sentada na minha poltrona reclinável – que eu peguei do meu falecido avô – preta, lendo Hilst de frente para um homem de aparência agradável, nem magro nem gordo, de bermuda, camisa regata e chinelo mexendo em seu laptop último lançamento, cheio de frescuras. Ah! Como ele enche o saco por causa desse computador!
Voltando ao assunto, essa coisa de casamento nunca passou pela minha cabeça. Pouco tempo atrás, pouco mesmo, eu dizia – e a vida é tão irônica que eu disse isso exatamente para esse homem que está sentado a minha frete – que casamento era uma convenção tola da sociedade e que eu não iria me render a esse tipo de contrato social sem fundamento. Eu continuo pensando do mesmo modo, mas cá estou eu: casada.
Isso prova que, foda-se o que você pensa, o importante são os atos, porque eles e somente eles mostram quem você é de fato. Mas que bosta, né?! Não saber nem quem você é… Freud já tinha dito isso há algumas décadas atrás, mas pra esse tipo de notícia, ninguém dá muita bola.
Droga! Eu não queria casar! Eu sou muito ridícula! OBVIO que eu queria casar, não estou casada?! Se eu não quisesse não teria casado, ninguém manda em mim, certo? Sou independente, tenho meu próprio dinheiro e etc, clichê, etc… HAHAHAHAHA sua TONTA! NINGUEM é independente, não sei de onde as pessoas tiram essas coisas! Ninguém é livre pra nada, nem pra falar o que quiser, ou fazer o que quiser. Me fale, se você quiser cagar no meio da rua em pleno horário de rush, você pode? Bem… poder eu posso, mas não devo. Faria ou não, porra?! Não. Por quê? Bem… falta de educação, porque é nojento, porque é contra lei, por vários motivos! Pois bem, se você não é livre nem pra dar uma cagada, você não é livre pra nada. Mas dentro da minha casa eu posso cagar o quanto quiser! Está certo, então caga ai agora no chão da sala. Quê?! É, no chão da sala. Mas no chão da sala não, no banheiro só. E porque isso?! Ah porra! Porque o banheiro foi feito pra isso ué! Cansei dessa conversa idiota comigo mesma! Está vendo! Só não ter mais argumentos que já quer fugir da conversa. FUGIR?! Fugir como se você sou eu mesma?! Mas que porra!
No final das contas, eu sei que a culpa é minha e não é minha. Pois, eu realmente acredito que sou algo que eu não sou, porém como eu não sei quem sou, prefiro continuar achando que sou o que eu acho que sou, já que mesmo que eu descubra quem eu sou – se já não descobri – não irei acreditar mesmo… confuso, não?