2

Padrão

Ela recostou-se no sofá e dormiu. Estava ali há horas até que o homem chegou, deu uma tapa em sua bunda e disse: “acorda mulher!”.
Ela sempre teve problemas para dormir, sempre trocando o dia pela noite. Uma vez me disse o porquê disso: “Ah! Toda noite é esse sofrimento, ponho minha cabeça pra dormir e automaticamente essa mente de merda começa a pensar em zilhões de coisas! Todas sempre irrelevantes, algumas inventadas, outras acontecidas… e não me largam, parecem possuir meu cérebro, como uma enchente de pensamentos. As vezes eu estou tão cansada! Mas essa maldição não me deixa dormir! Essa maldição!” E saia xingando tudo quanto era nome. Uma vez lhe disse para começar a tomar esses remédios para dormir, talvez isso ajudasse, mas ela não quis saber, disse que essas pílulas era coisa de gente dependente, gente fraca e que ela tinha poucas coisas de que se orgulhar na vida, e sua força era uma delas.
Gostava da noite, e como gostava! Mas não se enganem, não era de farras, não era dessa noite que ela gostava, era simplesmente da noite mesmo, da sua poesia, da luz da lua, do ar, era tudo diferente, tudo tão calmo, tanta paz, enquanto todos estão dormindo ela não tem obrigações, não tem o que fazer, só resta marasmo. O que mais gostava da noite, ela sempre me dizia, era seu silencio: “tudo fica silenciado a noite, tudo o que acontece pela noite é fato não acontecido, não ocorrido, é mudo, sem fala, é tão negro quanto a noite, vai tudo pro buraco negro da noite”. Era meio louca, acho que esse sono louco que ela tinha a fez ficar meio pirada, ou talvez isso fosse consequência da loucura. Mas não me entendam mal, era não parecia louca, não sejam tão caricaturistas. Era jovem, bonita, daquelas belezas que se encontra nas mulheres jovens, as unhas de um vermelho ofuscante, aquela pele amarelada de falta de sol, os cabelos pintados de um vermelho bonito e aquela boca cheia de lábios, o corpo cheio de carnes e aquelas olheiras sutis que lhe davam um certo charme.
Poder-se-ia encontrá-la de manhã bem cedo e a noite, mas nunca a tarde, pois esse era o único horário que conseguia dormir, o que geralmente lhe custava o dia útil todo, e ela vivia reclamando: “Como eu adoraria acordar cedo, com disposição, como as pessoas normais fazem, tomar café da manhã depois de ter dormido, sabe? Ah! Que sonho, meu Deus! Sempre acordo mal, com uma vontade louca de continuar dormindo. Bosta! Porque eu não tenho esse sono todo na hora de dormir de verdade?!”. Eu ficava pensando: como ela ganha a vida com esses horários todos errados? Soube que era escritora, mas ninguém vive de escrever, pelo menos não aqui nesse país, isso é coisa pra poucos. Depois soube que fazia faculdade, acho que de psicologia, e morava com a mãe. Como a mãe dela a deixa dormir assim?! Todo errado?! Essas mães de hoje em dia… A minha nunca me deixaria numa moleza dessas!
Mas… que horas serão? Já estou deitado nessa cama faz tanto tempo que nem faço mais idéia… merda! São 4:30!!!! Como pode!?! Será que estou pegando a doença dela?!

Anúncios

3 comentários sobre “2

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s